quarta-feira, 22 de março de 2017

Havemos de Falar


Peço perdão 
à sindicância das palavras:

Havemos de falar de amor, 
e de rios que correm para horizontes longínquos...
havemos de falar das estações, dos ventos , das chuvas,
dos poemas de despedida e das memórias sem retorno.

Havemos de falar de tanta coisa, 
no dia em que resolveres desobedecer 
a esse silêncio atroz onde te mora o pensamento.

Se houver inutilidade nas minhas palavras,
que se calem os ventos, que se desarrumem os mastros 
e eu passarei a viver alheada neste barco de emoções...

Pobres de nós os justos , os tementes a Deus .
O amor é assim mesmo: será sempre código por decifrar
na espuma dos dias, em que numa roda de fogo
se vão apagando os meses e os anos...

Havemos de falar de tanta coisa ...

Quando a minha voz não passar de um eco 
na luz da tua memória...


(eu)

Fotografia- Jaroslav Monchak

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Assim eu fosse


Assim eu fosse:

A sombra que desliza 
no reflexo da tua memória 
como filha ilegítima 
consagrada ao verbo inacabado.
Sílabas que desapareceram
por não merecerem viver.

A póstuma voz 
que quebra os silêncios...
o odor dos inocentes,
o espólio dos pecadores
a ser anunciado 
em breves felicidades...

Nada em mim se compadece 
desses rendilhados de veias amotinadas 
no coração das aves...

Sou crente na imortalidade da alma
e no rio que me propicia o gesto.

Assim eu fosse:

Todo este mar que me galga
ou simplesmente nada...



(eu)

Fotografia- Jaroslav Monchak

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Parabéns querida filha




Filha minha:

Assim possa 
esse coração 
que me é (e)terno 
indicar-te os caminhos da vida
mostrar-te longas miragens 
e acender-te no fundo dos olhos
o esplendor e a luz do sol .

Perdoa-me, filha minha, 
pelos dias em que te emoldurei o sorriso,
e por outros tantos em que parei o tempo
para que te demorasses ao meu colo.

Hoje percebo filha querida
Como o teu corpo se alongou,
Como a tua alma cresceu 
desde há trinta e quatro anos 
quando me abandonaste o ventre 
e neste regaço que sempre será teu
ouvi- te o primeiro choro, e floriste...

Com as tuas pétalas 
perfumaste-me os sonhos
e tornaste imensa a minha existência.

Agora, nesta vertigem insana 
com que te considero minha, 
sinto a cada dia 
uma imensa e profunda alegria 
sempre que um pouco de mim 
renasce em ti, flor...


(eu)

Há trinta e quatro anos, fui mãe pela primeira vez, era terça -feira de Carnaval e dia de aniversário do meu pai.
Hoje, ele faria 97 anos...

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Sei


Agora eu sei

não é fácil ouvires-me 
na quietude das sombras,
nem veres os traços do teu rosto
nas águas silenciosas do meu rio.

O tempo é escasso para lançar palavras
ao esquecimento de sonhos amputados.
Todas as correntes transportam consigo o eco das marés
e nelas navegam em silêncio uma voz sobrevivente.

Depois, há o rugir da terra a soltar o poema,
aves que ressuscitam a declarar impunidade à sua morte,
há o choque da palavra lavrada com laivos de sangue
onde a mudez se instala nos lábios humedecidos
e perpetuados em beijos inconfessáveis...

Há tanta coisa que não podes ouvir
nem ver, 
neste olhar cansado e exausto 
com que me abandono à cegueira da ilusão.

Agora eu sei



(eu)



Fotografia- Jaroslav Monchak

domingo, 22 de janeiro de 2017

Súplica



Tudo em mim é antigo 
ou movido a vapor...

Eu disse-te mãe,
não ser boa ideia,
pedir contas ao futuro.
Hoje rasurámos as palavras 
e guardamos vestígios de silêncios
no fundo do peito.

Porém , reconheço esplendor 
no som das nossas vozes.
As penas nas asas do voo 
são cada vez mais escassas,
e os gestos enigmáticos 
com que um dia me ofereceste o seio,
são um bálsamo 
para a minha alma faminta.

Incomensuráveis 
são os gestos de amor
onde guardo a ternura pulsante 
da infância.

Despe o peito da vertigem dos dias chuvosos,
mãe...

E ama-me!! 
Ama-me enquanto existirem rosas...





(eu)


Imagem- Natália Zakonova