terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Ecos Da Alma



Caem ecos das palavras 
que deixei sem nome.

E este marulhar de ondas longínquas
onde um dia fui passageira 
num mar de emoções,
desagua no silêncio dos sonhos.

Há pássaros que não sobrevivem às intempéries
de um peito onde se erguem muros incontornáveis,
e as estrelas explodem na ânsia 
de anunciar ao mundo memórias 
de outros tempos.

Pobres os que vivem a antecipar o futuro.
Todas as farsas merecem ser abandonadas à ilusão.

Porém dizem ser assim:
as estrelas alicerçam-se às águas 
para nos restituírem reflexos do nosso rio ...

E eu aqui, a tentar segurar 
a inconfidência das metáforas...


(eu)



Imagem-Jaroslav Monchak

sábado, 14 de janeiro de 2017

A Falar De Amor



Tantas vezes falei de amor
e da pureza de um coração aberto
a lançar chamas para a raiz dos lábios.

Tantas vezes falei de uma artéria pulsante
que me atravessa a língua e mapeia a boca 
como lava incandescente a queimar beijos.

Tantas vezes entrei no comboio das cinco
passageira alheada em sonhos meus e teus...

E viajámos por mundos infinitos
tão distantes, 
imaculadamente brancos,
onde o negro era impensado 
e a música das nossas almas 
não permitia entoar silêncios.

Agora entardeceram os sonhos 
as metáforas esconderam-se timidamente 
atrás do poema
como se fosse pecado serem descodificadas.

Contudo,
pressinto um tremor gigante na ponta dos dedos...
e tanto rio a galgar as margens...



(eu)



Imagem - Santiago Carbonell

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Grito




Há um invisível silêncio
onde não consigo permanecer.
Ruídos longínquos 
onde um dia ousei escrever o teu nome,
assombram-me os dias
e nos olhos entram-me memórias
das palavras que abandonei ao vento.
É neste abismo temerário 
entre o dia e a noite
que sinto a pureza dos versos 
e apetece-me gritar-te: "Poema".



(eu)




Fotografia- Alfred Cheney Johnston

domingo, 8 de janeiro de 2017

Regresso




Quisera eu apunhalar o verbo,
desfazer-me das palavras
e da volúpia de ser pássaro,
calando este coração que me é servo.

Colar à tua pele molhada 
o caos  do meu peito
e sufocar-me em sonhos 
turvos e desabitados
nas noites que morro
em labirintos fechados 
para renascer na luz extremada
dos sóis que nascem 
em cada madrugada.

Vertiginosas  são estas  asas 
que me amparam o voo
sempre que a alma se debruça

em terra molhada...



(eu)



Imagem- Laurence Winram

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Evitando o Caos


- Ai o caos! Ai o caos! E esta música frenética que me obrigam a dançar...
- Música? Qual música, menina?
- Qual música? Não ouve? O free jazz dos tempos, onde a história se escreveu e não permite ser mudada? Rodo.... rodo....enredada na própria culpa, e em teias de lembranças que afinal são simplesmente N-A-D-A!
- Espere, por favor cale-se! Eu sei que aqui não se escreve com maiúsculas, mas a partir de hoje, ninguém me ditará regras. Sim! regras! regras! regras!.... e multidões a rodar sem conseguirem parar...
- Ai que tropeceiiiiiiiiiiii!
- Tropeçou? E agora, menina?
- Agora? Agora, entro no poema que não era para ser dito desta forma, nem neste dia, nem a esta hora. E pronto aqui estou eu! Só, e sem ninguém a apontar-me caminhos.
...
Um dia, que mais sobrará de mim para além da culpa,
por não ter deixado o palco antes da peça terminar?
O cansaço apunhalar-me-á pelas costas 
estatelando-me o peito em terra árida.
Será tarde demais para me reconhecer, 
nem sequer o cheiro da pele colado às roupas 
que me cobriram o corpo parecerá meu.
Recordarei então, a luz que me iluminava o olhar 
e a docilidade nos gestos com que me movimentava 
(antes do caos)!
Agora, restam somente pingos de sangue 
a escorrerem-me dos olhos em forma de lágrima, 
e a dureza do chão onde encosto os lábios 
como se quisesse procurar a última gota do líquido milagroso 
que sacia a sede....
Dizem, que há ventos que podem secar assim a pele, 
e até a vida...
Ah! que saudades do aroma das pétalas brancas 
que cobriam aquele leito onde costumava sonhar, 
sem que ficasse presa a galhos de ciprestes verdejantes 
impregnados do veneno letal que paralisa os lábios 
ao soprar das velas...
Porém, hoje mesmo lembrei-me 
que um dia tive uma vida 
à qual permaneço aprisionada,
e à culpa de não me perdoar, 
quando apenas fui inocente...
...
-Espere.... espere... ainda está aí? Ocorreu-me que talvez pudéssemos evitar o caos se reescrevessemos a história ...
-Estou sim menina! Estarei sempre.... Pode começar! Como dizia Nietzsche, "É preciso muito caos interior para parir uma estrela que dança"
...Ordo ab Chao...


(eu)