quinta-feira, 3 de Julho de 2014

Horas Desmarcadas



Eram 17:05 e não estavas lá...

Ceguei porque não te vi 
e segui com os olhos em linha recta 
os ríctus das máscaras que viajavam sonâmbulas
embaladas pelo som metálico dos carris.

Ensurdeci porque não te vi 
e permaneci em pé
sobre a plataforma móvel entre duas carruagens.
Os pés desalinhados buscavam os teus,
procuravam-te para que permanecesses.

A ausência do beijo às 17:05
o tempo sem tempo às 17:05 
todos os relógios me ignoraram sem pedir licença 
hoje, às 17:05....

Passei a língua pelos lábios que se mantinham entreabertos
e cristalizados por não conseguirem falar....
- passava pouco das 17:05-

Emudeci, porque não te vi
Atraiçoada por um amor que me fez diminuta 
viva num corpo desabitado de carícias quando eram 17:05,
em imagens que falharam quando tudo parecia perfeito
e me obrigaram a vestir este olhar de desgosto. 

Apenas porque hoje, nenhum relógio marcou 17:05




(eu)


Imagem- Frederico Erra

sábado, 28 de Junho de 2014

Há Silêncios que não devem ser Interrompidos....o Ruído não faz parte da Consciência Pura...



Esta aflição de ser sem saber se sou,
essência materializada em palavras que não sabem dizer,
coração em ebulição na aspereza das chamas
que convulsionam uma vida a derreter-se em ondas sublimes
onde o naufrágio se adianta.

Alevanto-me no desespero e em desapego de circunstância,
reconstruo-te mais uma vez em ilusão da minha mente
e deixo-me morrer colada ao corpo que imagino teu.

Extremada fui, sem saber quem era...
Insistindo perdoar-me, sendo apenas inocente....



(eu)

Imagem- Frederico Erra

segunda-feira, 12 de Maio de 2014

Saudade



Há vinte sete anos, uma pomba branca voou até ao céu e acendeu-se uma estrela.
Breve foi o tempo em que estivemos juntos nesta dimensão, pai!
Mas contigo aprendi, a multidimensionalidade do amor...


Grata pela vida, e...continuo a amar-te.


(eu)
                                                                               


terça-feira, 6 de Maio de 2014

Afinar dos Relógios



Há horas afinadas no tempo, quando os relógios tocam todos a mesma melodia. 

E eu, que nem sei cantar, entro em cena, trauteando aquela opereta que tu tanto gostas.
É a única forma que tenho de me fundir em ti, para que a tua pele me cubra de musica
e me faça sentir o vibrar das cordas de onde saem todos os sons.

Até poderia não ser assim, mas eu quero que seja. E será até ao bater das palmas.

Depois daremos as mãos e juntos acertaremos a hora a todos os relógios. 
A cada um deles daremos um espaço no tempo(?), para que possamos  preparar o próximo recital.

Hoje pensei acordar-te, enquanto sonhavas com aquela peça a que não chegámos a dar um nome,
nem sei porque não o fiz, talvez o faça amanhã . Amanhã - é sempre um bom dia- .

E os relógios precisam ser afinados todos os dias, tal e qual os instrumentos de uma orquestra
antes de o espectáculo começar.

Hoje, apenas quero dizer-te que te amo.

(eu)

domingo, 27 de Abril de 2014

A Falar de Amor



Já nem sei, quantos degraus subi 
Já nem sei, em que esquinas me demorei
nem os sóis que sem querer apaguei
ao longo - de um longo - caminho que percorri.

Onde estais, que não ouvis a minha voz?
em que lugares ela se perdeu de tanto se afirmar?
cantando com os pássaros canções de embalar.
em noites rumorosas de vento veloz.
:
:
:

Eu sei! 
Talvez os meus sonhos tenham amarelecido
ou as minhas palavras tenham perdido 
a doçura pueril das pétalas virgens 
adormecidas no meu corpo. 

Espera! 
Só mais um pouco,
Ouve-me!
eu só quero falar de amor...
deste amor com que te dou o sangue a beber
desta febre que exalta palavras que não sabem rimar
deste fervor com que me atrevo a juntar letras 

Apenas para falar de amor:

Desse rio, sem margens, sem terra, sem luar,
sobranceiro de todos os lugares 
ocultados, esquecidos, sem véspera nem amanhã.

[Como se o amanhã existisse sempre, e as palavras 
pudessem esperar o momento de serem libertadas].

Por isso eu quero que saibas:
Tudo o que escrevo
é o que a boca não sabe dizer, 
com o tom desafinado da minha voz,
em uníssono com as melodias do coração.

Por isso, 
subi a este lugar elevado, sagrado
para te falar de amor
para que somes às tuas memórias 
o que eu perpetuo nas minhas 
sempre que me apetece 

voar com os pássaros

(eu)

Imagem - Igor Voloshin