segunda-feira, 10 de abril de 2017

Impermanências


Faça-se silêncio!
o ruído é-me nefasto ao gesto

Na permanência da velha árvore
debruçada sobre a janela do meu quarto,
hoje trago-te a inconfidência das rosas
e uma asa de anjo ,
como testemunho incontestável 
da finitude do voo.

todas as pombas que circundam o céu 
se vestiram de branco
e os homens abriram a boca de espanto
à inviolável luz de esperança
que atravessa todas as impermanências.

É assim que eu me sinto
irremediavelmente exausta.inconformada .
Nenhuma lua poderá transformar silêncios
onde estes olhos cegos se entregam
ao vislumbre de breves loucuras.

Um dia todos os poetas estarão mortos
e a mudez das almas 
será caricia apenas no coração das aves.



(eu)




Imagem- Lauri Blank

quarta-feira, 22 de março de 2017

Havemos de Falar


Peço perdão 
à sindicância das palavras:

Havemos de falar de amor, 
e de rios que correm para horizontes longínquos...
havemos de falar das estações, dos ventos , das chuvas,
dos poemas de despedida e das memórias sem retorno.

Havemos de falar de tanta coisa, 
no dia em que resolveres desobedecer 
a esse silêncio atroz onde te mora o pensamento.

Se houver inutilidade nas minhas palavras,
que se calem os ventos, que se desarrumem os mastros 
e eu passarei a viver alheada neste barco de emoções...

Pobres de nós os justos , os tementes a Deus .
O amor é assim mesmo: será sempre código por decifrar
na espuma dos dias, em que numa roda de fogo
se vão apagando os meses e os anos...

Havemos de falar de tanta coisa ...

Quando a minha voz não passar de um eco 
na luz da tua memória...


(eu)

Fotografia- Jaroslav Monchak

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Assim eu fosse


Assim eu fosse:

A sombra que desliza 
no reflexo da tua memória 
como filha ilegítima 
consagrada ao verbo inacabado.
Sílabas que desapareceram
por não merecerem viver.

A póstuma voz 
que quebra os silêncios...
o odor dos inocentes,
o espólio dos pecadores
a ser anunciado 
em breves felicidades...

Nada em mim se compadece 
desses rendilhados de veias amotinadas 
no coração das aves...

Sou crente na imortalidade da alma
e no rio que me propicia o gesto.

Assim eu fosse:

Todo este mar que me galga
ou simplesmente nada...



(eu)

Fotografia- Jaroslav Monchak

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Parabéns querida filha




Filha minha:

Assim possa 
esse coração 
que me é (e)terno 
indicar-te os caminhos da vida
mostrar-te longas miragens 
e acender-te no fundo dos olhos
o esplendor e a luz do sol .

Perdoa-me, filha minha, 
pelos dias em que te emoldurei o sorriso,
e por outros tantos em que parei o tempo
para que te demorasses ao meu colo.

Hoje percebo filha querida
Como o teu corpo se alongou,
Como a tua alma cresceu 
desde há trinta e quatro anos 
quando me abandonaste o ventre 
e neste regaço que sempre será teu
ouvi- te o primeiro choro, e floriste...

Com as tuas pétalas 
perfumaste-me os sonhos
e tornaste imensa a minha existência.

Agora, nesta vertigem insana 
com que te considero minha, 
sinto a cada dia 
uma imensa e profunda alegria 
sempre que um pouco de mim 
renasce em ti, flor...


(eu)

Há trinta e quatro anos, fui mãe pela primeira vez, era terça -feira de Carnaval e dia de aniversário do meu pai.
Hoje, ele faria 97 anos...

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Sei


Agora eu sei

não é fácil ouvires-me 
na quietude das sombras,
nem veres os traços do teu rosto
nas águas silenciosas do meu rio.

O tempo é escasso para lançar palavras
ao esquecimento de sonhos amputados.
Todas as correntes transportam consigo o eco das marés
e nelas navegam em silêncio uma voz sobrevivente.

Depois, há o rugir da terra a soltar o poema,
aves que ressuscitam a declarar impunidade à sua morte,
há o choque da palavra lavrada com laivos de sangue
onde a mudez se instala nos lábios humedecidos
e perpetuados em beijos inconfessáveis...

Há tanta coisa que não podes ouvir
nem ver, 
neste olhar cansado e exausto 
com que me abandono à cegueira da ilusão.

Agora eu sei



(eu)



Fotografia- Jaroslav Monchak

domingo, 22 de janeiro de 2017

Súplica



Tudo em mim é antigo 
ou movido a vapor...

Eu disse-te mãe,
não ser boa ideia,
pedir contas ao futuro.
Hoje rasurámos as palavras 
e guardamos vestígios de silêncios
no fundo do peito.

Porém , reconheço esplendor 
no som das nossas vozes.
As penas nas asas do voo 
são cada vez mais escassas,
e os gestos enigmáticos 
com que um dia me ofereceste o seio,
são um bálsamo 
para a minha alma faminta.

Incomensuráveis 
são os gestos de amor
onde guardo a ternura pulsante 
da infância.

Despe o peito da vertigem dos dias chuvosos,
mãe...

E ama-me!! 
Ama-me enquanto existirem rosas...





(eu)


Imagem- Natália Zakonova

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Ecos Da Alma



Caem ecos das palavras 
que deixei sem nome.

E este marulhar de ondas longínquas
onde um dia fui passageira 
num mar de emoções,
desagua no silêncio dos sonhos.

Há pássaros que não sobrevivem às intempéries
de um peito onde se erguem muros incontornáveis,
e as estrelas explodem na ânsia 
de anunciar ao mundo memórias 
de outros tempos.

Pobres os que vivem a antecipar o futuro.
Todas as farsas merecem ser abandonadas à ilusão.

Porém dizem ser assim:
as estrelas alicerçam-se às águas 
para nos restituírem reflexos do nosso rio ...

E eu aqui, a tentar segurar 
a inconfidência das metáforas...


(eu)



Imagem-Jaroslav Monchak

sábado, 14 de janeiro de 2017

A Falar De Amor



Tantas vezes falei de amor
e da pureza de um coração aberto
a lançar chamas para a raiz dos lábios.

Tantas vezes falei de uma artéria pulsante
que me atravessa a língua e mapeia a boca 
como lava incandescente a queimar beijos.

Tantas vezes entrei no comboio das cinco
passageira alheada em sonhos meus e teus...

E viajámos por mundos infinitos
tão distantes, 
imaculadamente brancos,
onde o negro era impensado 
e a música das nossas almas 
não permitia entoar silêncios.

Agora entardeceram os sonhos 
as metáforas esconderam-se timidamente 
atrás do poema
como se fosse pecado serem descodificadas.

Contudo,
pressinto um tremor gigante na ponta dos dedos...
e tanto rio a galgar as margens...



(eu)



Imagem - Santiago Carbonell

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Grito




Há um invisível silêncio
onde não consigo permanecer.
Ruídos longínquos 
onde um dia ousei escrever o teu nome,
assombram-me os dias
e nos olhos entram-me memórias
das palavras que abandonei ao vento.
É neste abismo temerário 
entre o dia e a noite
que sinto a pureza dos versos 
e apetece-me gritar-te: "Poema".



(eu)




Fotografia- Alfred Cheney Johnston

domingo, 8 de janeiro de 2017

Regresso




Quisera eu apunhalar o verbo,
desfazer-me das palavras
e da volúpia de ser pássaro,
calando este coração que me é servo.

Colar à tua pele molhada 
o caos  do meu peito
e sufocar-me em sonhos 
turvos e desabitados
nas noites que morro
em labirintos fechados 
para renascer na luz extremada
dos sóis que nascem 
em cada madrugada.

Vertiginosas  são estas  asas 
que me amparam o voo
sempre que a alma se debruça

em terra molhada...



(eu)



Imagem- Laurence Winram